Reportagem da CartaCapital aponta aumento da remuneração de executivos, investimentos abaixo do prometido e perda de influência do Estado sobre uma das maiores empresas de energia da América Latina

Quatro anos após a privatização da Eletrobras, concluída em junho de 2022, o balanço apresentado em reportagem publicada pela CartaCapital levanta questionamentos sobre os resultados do processo para a população brasileira, os trabalhadores e o setor elétrico nacional. Segundo a publicação, enquanto os lucros da companhia e a remuneração de seus dirigentes cresceram significativamente, os investimentos prometidos durante a privatização ficaram muito abaixo do anunciado, e a conta de luz tornou-se estruturalmente mais cara.

De acordo com a reportagem, a privatização foi viabilizada por meio da emissão de novas ações da empresa e da consequente diluição da participação da União, que perdeu o controle da companhia. Ainda segundo a CartaCapital, embora o governo detenha cerca de 40% das ações com direito a voto, sua influência nas decisões permanece limitada a 10% dos votos, em razão do modelo societário aprovado durante o processo de desestatização.

A publicação destaca que os estudos apresentados na época da privatização projetavam investimentos da ordem de R$ 14 bilhões por ano no setor elétrico, o que representaria R$ 56 bilhões em quatro anos. Entretanto, segundo os dados citados pela reportagem, os investimentos efetivamente realizados ficaram pouco acima de R$ 10 bilhões no período.

Outro ponto abordado pela CartaCapital é o impacto sobre as tarifas de energia. A reportagem afirma que a perda do controle estatal sobre a Eletrobras retirou do governo um importante instrumento de influência sobre o mercado e sobre a política tarifária do setor elétrico. Além disso, menciona que leilões recentes promovidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) poderão contribuir para novos reajustes nas contas de luz nos próximos anos.

A matéria também chama atenção para a evolução dos salários dos dirigentes da companhia. Segundo documentos citados pela publicação, entre 2023 e o final de 2026 a remuneração média dos 11 diretores da empresa alcançará R$ 558 mil mensais, gerando uma despesa acumulada estimada em R$ 295 milhões. Já os nove integrantes do conselho de administração terão recebido, em média, R$ 143 mil por mês, totalizando cerca de R$ 62 milhões no período.

A reportagem informa ainda que Vicente Falconi, presidente do conselho de administração da companhia, possui aproximadamente 7,7 milhões de ações da empresa, avaliadas em cerca de R$ 400 milhões. Também são mencionados contratos entre a empresa e firmas ligadas ao grupo Falconi, informações extraídas de documentos encaminhados às autoridades regulatórias dos Estados Unidos.

Outro aspecto destacado pela publicação é a manutenção de mecanismos societários que dificultariam uma eventual retomada do controle estatal da empresa. Segundo a CartaCapital, além da limitação do poder de voto da União, o estatuto da companhia contém dispositivos conhecidos no mercado como poison pill (“pílula de veneno”), que elevam significativamente o custo de uma eventual recompra de ações pelo Estado.

Privatização segue sob críticas do movimento sindical

Para a FNU, os dados apresentados pela reportagem reforçam críticas históricas feitas pelas entidades sindicais ao processo de privatização da Eletrobras. A Federação sempre alertou que a transferência do controle de uma empresa estratégica para o desenvolvimento nacional poderia reduzir a capacidade de planejamento do Estado, enfraquecer a soberania energética do país e priorizar interesses financeiros de curto prazo em detrimento dos investimentos estruturantes necessários ao setor elétrico.

A FNU também considera preocupante que os investimentos efetivamente realizados estejam muito abaixo das projeções apresentadas para justificar a privatização, enquanto os custos para consumidores seguem pressionados e a remuneração da alta administração cresce de forma acelerada.

Para a Federação, a energia elétrica é um serviço essencial para a população e para o desenvolvimento econômico do país. Por isso, defende que as decisões sobre o setor sejam orientadas pelo interesse público, pela modicidade tarifária, pela universalização do acesso, pela segurança energética e pela valorização dos trabalhadores.

Leia a reportagem completa da CartaCapital:
https://www.cartacapital.com.br/economia/salarios-astronomicos-para-dirigentes-conta-mais-alta-para-o-pais-os-4-anos-de-privatizacao-da-eletrobras/