Artigo – Pedro Damásio*
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Nos últimos anos, milhões de brasileiros passaram a conviver com uma realidade que deveria ser inaceitável em um país como o Brasil: ficar dias sem energia elétrica, enfrentar interrupções no abastecimento de água ou pagar tarifas cada vez mais altas por serviços essenciais.
Não se trata de episódios isolados. Apagões recentes em grandes centros urbanos, como os registrados na área de concessão da Enel em São Paulo, e os problemas recorrentes no abastecimento de água em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Sergipe escancaram um problema maior: a forma como o país tem tratado serviços que são fundamentais para a vida.
Quando falta luz, não é apenas um transtorno. É o pequeno comerciante que perde mercadoria, é o hospital que opera no limite, é a família que passa horas — às vezes dias — no escuro. Quando falta água, o impacto é ainda mais profundo: atinge diretamente a saúde, a dignidade e a sobrevivência das pessoas, sobretudo nas periferias e nas áreas mais vulneráveis.
Esses episódios não podem ser tratados como falhas pontuais ou problemas exclusivamente técnicos. Eles revelam limites de um modelo que, ao longo dos últimos anos, passou a tratar energia e saneamento como mercadorias, subordinando direitos básicos à lógica do lucro.
No setor elétrico, as críticas recorrentes de órgãos reguladores à qualidade do serviço prestado por concessionárias privadas e a insatisfação crescente da população mostram que algo não está funcionando como deveria. No saneamento, estudos e análises de entidades do setor, como o Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), indicam que o avanço das concessões não tem garantido, na prática, a universalização do acesso à água e ao esgotamento sanitário, especialmente nas regiões mais pobres.
A promessa de eficiência e melhoria dos serviços não pode se sobrepor à realidade vivida por quem depende deles todos os dias.
É preciso recolocar no centro do debate uma questão fundamental: qual é o papel do Estado na garantia de direitos essenciais? Energia e água não são produtos qualquer. São condições básicas para a vida, para o desenvolvimento econômico e para a redução das desigualdades.
Defender serviços públicos fortes, com controle social e compromisso com a universalização, não é uma posição ideológica — é uma necessidade concreta de um país que ainda convive com profundas desigualdades no acesso a direitos.
É nesse contexto que realizaremos, nos dias 7 e 8 de maio, em Natal (RN), o 14º Encontro Nacional dos Urbanitários (ENU). Mais do que um evento sindical, o ENU é um espaço de reflexão e construção coletiva sobre os rumos do Brasil.
Os trabalhadores e trabalhadoras urbanitários — que atuam diretamente na operação e manutenção dos sistemas de energia, saneamento, gás e meio ambiente — conhecem, como poucos, os impactos das decisões tomadas sobre esses setores. São eles que estão na ponta, garantindo que a luz chegue às casas e que a água chegue às torneiras.
Por isso, sua luta não é corporativa. É uma luta que diz respeito à sociedade como um todo.
No ENU, vamos debater temas centrais como a reversão de privatizações no setor elétrico, a defesa das empresas públicas de saneamento e a valorização dos trabalhadores. Mas, acima de tudo, vamos discutir que país queremos construir: um país onde direitos básicos sejam garantidos a todos ou um país onde esses direitos dependam da capacidade de pagamento de cada cidadão.
Em um ano de eleições, esse debate ganha ainda mais relevância. Não se trata apenas de escolher governos, mas de decidir qual projeto de país queremos seguir.
Quando falta luz e quando falta água, não é apenas o sistema que falha. É o modelo. E é sobre isso que precisamos falar — com responsabilidade, com compromisso público e com o olhar voltado para quem mais precisa.
*Pedro Damásio – presidente da FNU – Federação Nacional dos Urbanitários
