Debate no Encontro Nacional dos Urbanitários defendeu revisão da NR-15, fortalecimento das negociações coletivas e criação de mecanismos de proteção aos trabalhadores expostos ao calor extremo

Os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde e a segurança da classe trabalhadora estiveram no centro de um dos debates mais importantes do 14º Encontro Nacional dos Urbanitários (ENU), realizado em Natal (RN).

A palestra “Mudanças climáticas e os efeitos do calor sobre os trabalhadores(as)” foi conduzida por Eduardo Annunciato — Chicão, dirigente da FENATEMA/CNTI, com coordenação de Alexandre Meduneckas (FENATEMA) e Alessandra Pereira de Souza (STIEHI-SP).

Com base na apresentação técnica do “1º Plano Verão dos Trabalhadores 2025-2026”, Chicão alertou para os riscos crescentes provocados pelo calor extremo nos ambientes laborais, especialmente em atividades realizadas a céu aberto, em espaços confinados e nos setores elétrico, operacional e industrial.

Segundo o dirigente, as mudanças climáticas deixaram de ser apenas um tema ambiental e passaram a representar um dos principais desafios para a saúde, a segurança e os direitos da classe trabalhadora.

“A questão climática também é uma questão de saúde e segurança no trabalho. O trabalhador está na linha de frente desses impactos e não pode continuar desprotegido”, afirmou durante o debate.

Calor extremo aumenta riscos de acidentes e adoecimento

Ao longo da palestra, Chicão explicou que as alterações nos padrões climáticos têm potencial para ampliar doenças ocupacionais e acidentes de trabalho, criando novos desafios para empresas, governos e sindicatos.

Segundo ele, a exposição a condições climáticas extremas — como calor excessivo, radiação ultravioleta, poluição do ar e eventos climáticos severos — aumenta significativamente os riscos de adoecimento e acidentes laborais.

Entre os principais efeitos do calor excessivo sobre os trabalhadores apresentados durante a atividade estiveram:

  • hipertermia;
  • exaustão térmica;
  • desidratação;
  • insolação;
  • rabdomiólise;
  • fadiga extrema;
  • câimbras;
  • tonturas;
  • irritabilidade;
  • perda de concentração;
  • desmaios;
  • e aumento do risco de acidentes de trabalho.

A apresentação destacou ainda que o calor excessivo pode provocar falência de órgãos, problemas cardíacos, insuficiência renal e agravamento de doenças respiratórias.

“O corpo humano possui limites fisiológicos. Quando o trabalhador é submetido a calor excessivo sem proteção adequada, o risco à vida é real”, alertou Chicão.

Setor elétrico exige atenção redobrada

Um dos pontos mais debatidos durante a palestra foi a situação específica dos trabalhadores do setor elétrico.

Segundo a apresentação técnica, a combinação entre calor extremo, eletricidade e trabalho em altura potencializa significativamente os riscos de acidentes graves e fatais.

A atividade destacou que sintomas como fadiga, tontura, desidratação e perda de concentração podem aumentar o risco de choques elétricos, quedas e acidentes em atividades operacionais.

Na apresentação, Chicão resumiu o cenário com a expressão:
“Calor + energia elétrica = perigo”.

O debate também chamou atenção para os riscos enfrentados por trabalhadores que utilizam equipamentos de proteção individual pesados e vestimentas especiais contra fogo repentino e arco elétrico, que dificultam ainda mais a dissipação do calor corporal.

NR-15 e proteção ao trabalhador

Outro eixo central do debate foi a Norma Regulamentadora nº 15 (NR-15), que trata das atividades e operações insalubres relacionadas à exposição ao calor ocupacional.

Segundo Chicão, a NR-15 estabelece limites de tolerância para exposição ao calor e prevê medidas de proteção como:

  • redução do tempo de exposição;
  • ampliação dos intervalos;
  • áreas sombreadas;
  • hidratação constante;
  • e até interrupção das atividades em situações extremas.

O dirigente criticou alterações promovidas durante o governo anterior na regulamentação relacionada ao calor ocupacional.

Segundo ele, as mudanças transferiram para os SESMTs das empresas a definição sobre pausas e períodos de descanso dos trabalhadores expostos ao calor.

“Estamos lutando para corrigir essa distorção e restabelecer mecanismos mais rígidos de proteção aos trabalhadores”, afirmou.

A apresentação também abordou a importância da NR-01, relacionada ao gerenciamento de riscos ocupacionais, destacando a obrigação das empresas em identificar, monitorar e controlar riscos relacionados ao calor extremo.

Monitoramento térmico e “Plano Verão dos Trabalhadores”

Durante a palestra, Chicão apresentou os principais objetivos do “1º Plano Verão dos Trabalhadores 2025-2026”, iniciativa voltada ao monitoramento dos riscos provocados pelo calor extremo nos ambientes laborais.

Entre as medidas propostas estão:

  • monitoramento constante das temperaturas;
  • emissão de alertas de risco;
  • treinamento de trabalhadores e dirigentes sindicais;
  • elaboração de planos de emergência;
  • criação de protocolos preventivos;
  • acompanhamento médico;
  • e fortalecimento das negociações coletivas sobre proteção térmica.

Outro encaminhamento debatido foi a aquisição de equipamentos de medição do Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG), utilizado para monitorar o estresse térmico nos locais de trabalho.

Segundo Chicão, os aparelhos permitirão acompanhamento em tempo real das condições térmicas e emissão de alertas para os trabalhadores.

O dirigente também defendeu a utilização das negociações coletivas para garantir cláusulas relacionadas à proteção contra o calor extremo, recuperação térmica, pausas, hidratação e medidas preventivas.

Mudanças climáticas e luta sindical

Ao longo do debate, dirigentes sindicais ressaltaram que o avanço das mudanças climáticas exige novas formas de organização e atuação sindical.

A palestra reforçou que temas como calor extremo, radiação solar, saúde ocupacional e gerenciamento de riscos climáticos precisam passar a integrar permanentemente as pautas trabalhistas e os acordos coletivos da categoria.

Também foi definida a criação de uma comissão para reunir dados técnicos e subsidiar reivindicações junto ao Ministério do Trabalho e Emprego, buscando atualização das normas relacionadas à exposição ao calor extremo.

“A luta sindical também passa pela defesa da vida e da saúde dos trabalhadores diante das mudanças climáticas”, destacou Chicão ao final da atividade.

O debate no 14º ENU evidenciou que a crise climática já impacta diretamente o cotidiano dos trabalhadores e reforçou a necessidade de políticas públicas, fiscalização, prevenção e fortalecimento da organização coletiva para proteger a saúde e a vida da classe trabalhadora.

Acesse a apresentação de Eduardo Annunciato – Chicão:
Calor v3 Mata 28 abril 2026