A falta de equipamentos de proteção individual – EPIs, de treinamento e sofrimento psíquico foram os principais pontos indicados por trabalhadores de serviços essenciais na pesquisa “Trabalhadoras e Trabalhadores Protegidos Salvam Vidas”, realizada pela ISP – Internacional de Serviços Públicos, divulgada em seminário na terça-feira (25 de agosto).

Os resultados sintetizados pelos pesquisadores Patrícia Pelatieri (Dieese) e Jandir Pauli (IMED e CEAP – Centro de Educação e Assessoramento Popular) relevam que 63% dos trabalhadores pesquisados disseram que a quantidade de EPIs fornecida em seu local de trabalho era insuficiente para troca e higienização, principalmente para os que cumprem turnos de mais de 12 horas; 77% relataram que não tiveram nenhum treinamento para lidar com a realidade do trabalho que desenvolvem junto à população; e 54% dos trabalhadores sofreram por ter de lidar com situações às quais não se sentiam devidamente capacitados, ocasionando sofrimento psíquico.

A coleta de dados foi realizada entre 31 de março e 15 de junho com 3.036 participantes e Jandir Pauli destaca que 86% dos respondentes são trabalhadores da saúde e 75% mulheres.

Questão de gênero
“Claramente percebemos uma maior incidência de sofrimento psíquico entre as mulheres e aqueles que preferem não declarar seu gênero. Entre as mulheres, 57% informaram passar por sofrimento psíquico neste período, já entre respondentes homens a porcentagem é de 44%, o que nos dá margem para analisar essa questão a partir das desigualdades de gênero: dupla – ou tripla- jornada de trabalho feminina, menores salários, maior precarização das relações de trabalho, falta de compartilhamento das tarefas domésticas com a família, mulheres como chefas de família e,  portanto, maiores reponsabilidades, pressão e sobrecarga de trabalho, agravadas por exposição ao assédio moral e/ou sexual”, explica o pesquisador do CEAP.

Para a pesquisadora da Dieese, os dados de sofrimento psíquico guardam provável relação com a falta de equipamentos de proteção, treinamento adequado e jornada excessiva de trabalho. Segundo Pelatieri, outro dado que chama atenção é o volume e a dramaticidade dos relatos apresentados em uma pergunta não obrigatória, mas respondida por 55% dos participantes da enquete, sobre comentários gerais em relação às condições de trabalho. “Um grande volume destes comentários detalham os dramas vividos pelos trabalhadoras e trabalhadores em condições de risco sem equipamentos e tendo que lidar com situações para as quais não foram devidamente capacitados.”

As palavras mais descritas na pergunta aberta sobre sofrimento psíquico foram: ansiedade, estresse, medo, pânico, insônia, angústia e pressão.

Outro dado alarmante é de que 94% dos trabalhadores informaram que não foi oferecida hospedagem no local de trabalho a quem não poderia retornar para casa por conviver com pessoas do grupo de risco.

Convidado do seminário, o procurador do Ministério Público do Trabalho,  Ronaldo Lima dos Santos, destacou a importância da pesquisa da ISP, afirmando que a situação da pandemia é de guerra, por isso é preciso ter dados para a tutela eficaz dos profissionais.

Como indicativos, a pesquisa aponta a necessidade de ações de curto prazo para regularização do fornecimento de EPIs, gestão da carga horária de trabalho e apoio psicológico. Diante dos resultados, Denise Motta Dau, secretária sub-regional da ISP, enfatiza que também é preciso ações estruturais para melhoria das condições de trabalho, como políticas de valorização e reconhecimento, de representação, de humanização e de gestão do trabalho.

Manifesto
Ao final do seminário foi divulgado o Manifesto “Proteger para Salvar – o futuro do Trabalho na Saúde e serviços essenciais”, assinado por dezenas de entidades representantes de trabalhadores, enumerando série de propostas, como reforma tributária solidária e justa, revogação Emenda Constitucional 95 e recuperação do SUS.

. Leia a apresentação dos dados da campanha: Apresentacao_Campanha_final
. Leia o manifesto
: Manifesto – Proteger para Salvar

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