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Artigo: Benedita da Silva e Amanda de Albuquerque
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Neste mês de março, mês das mulheres, a FNU traz um artigo para reflexão sobre a importância de termos mais mulheres em cargos que decidem, de fato, as políticas públicas do país.
Para ler e refletir:

O Brasil registrou cerca de 1.470 feminicídios em 2025[1], o equivalente a quase quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. Em muitos casos, os crimes ocorrem dentro de casa e são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. A violência também tem cor: mulheres negras estão entre as principais vítimas desse tipo de crime, refletindo desigualdades históricas que atravessam a sociedade brasileira.

Os primeiros dados divulgados em 2026 acendem um alerta de que o problema continua longe de ser enfrentado com a urgência necessária. Em São Paulo, por exemplo, janeiro registrou o maior número de feminicídios para o mês desde o início da série histórica. 

Diante desse cenário, é comum que a resposta pública se concentre no endurecimento das leis e no aumento das políticas de segurança. Essas medidas são importantes, mas não esgotam a discussão. Há uma dimensão estrutural do problema que ainda precisa ser enfrentada com mais clareza: quem decide as políticas de proteção a meninas e mulheres ainda são majoritariamente os homens. 

As mulheres permanecem sub-representadas nos espaços onde decisões estratégicas são tomadas, com apenas uma em cada quatro secretarias sendo lideradas por mulheres. No Executivo (municipal, estadual e federal), cargos comissionados e funções de confiança, que influenciam diretamente a formulação e implementação de políticas públicas, seguem majoritariamente ocupados por pessoas que não conhecem a realidade da vida das mulheres.

Essa desigualdade de poder não é apenas simbólica. Ela afeta diretamente a forma como o Estado enxerga problemas sociais, define prioridades e distribui recursos. Quando mulheres estão ausentes dos espaços de decisão, questões que impactam diretamente suas vidas, como violência de gênero, acesso à rede de proteção, políticas de cuidado, saúde reprodutiva ou autonomia econômica, tendem a receber menos atenção institucional. 

Não se trata de dizer que mulheres governam melhor por natureza, mas reconhecer que trajetórias sociais diferentes produzem olhares diferentes sobre a realidade. 

Quando mulheres ocupam posições de liderança, ampliam-se as perspectivas presentes no processo decisório e cresce a capacidade do Estado de responder às desigualdades que marcam a sociedade. 

Esse é o espírito da mobilização nacional conhecida como Maré de PLs – Cotas na Gestão Pública. A iniciativa disponibiliza um projeto de lei que pode ser apresentado em câmaras municipais e assembleias legislativas com um objetivo claro: ampliar a presença de mulheres, especialmente mulheres negras, em cargos comissionados e funções de confiança na administração pública. 

A proposta parte de um princípio simples. Se o Estado formula e executa políticas que afetam toda a população, é fundamental que sua estrutura de comando reflita melhor a diversidade da sociedade que ele governa. 

O Brasil já acumulou experiências importantes de políticas afirmativas. As cotas no ensino superior e no serviço público mostraram que intervenções institucionais podem alterar padrões históricos de exclusão e ampliar oportunidades para grupos que tradicionalmente ficaram à margem dos espaços de poder. 

A ampliação da presença feminina na gestão pública segue essa mesma lógica. Não se trata de privilégio, mas de enfrentar distorções históricas que ainda limitam quem participa das decisões que moldam a vida coletiva. 

O debate ganha ainda mais urgência diante do atual contexto de violência de gênero no país. A escalada dos feminicídios e das agressões contra mulheres revela uma realidade que exige políticas públicas robustas, integradas e permanentes. Para que essas políticas existam e funcionem, é essencial que mulheres estejam presentes também nos espaços onde o orçamento é definido e as prioridades administrativas são estabelecidas. 

Democratizar o acesso aos cargos de decisão no Executivo não é apenas uma questão de representação, é uma condição para que o Estado brasileiro consiga responder de forma mais eficaz aos desafios sociais que afetam milhões de mulheres todos os dias. 

Ampliar a presença de mulheres nos espaços de decisão deixou de ser apenas uma agenda de igualdade. É uma necessidade democrática. 

Porque, no fim das contas, sem mulheres no comando, não há democracia plena. 

*Benedita da Silva é deputada federal e Amanda de Albuquerque é diretora da Rede A Ponte
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Artigo publicado originalmente no site  Le Monde Diplomatique Brasil