A luta em defesa do saneamento público e de qualidade ganhou mais força com a realização do Seminário Nacional “Quais os Rumos do Saneamento?”, realizado em São Paulo, nesta quinta-feira (23/10), que reuniu dirigentes do setor de saneamento e meio ambiente de 15 estados brasileiros.
O evento foi organizado pela FNU, Fenatema, CTB, CNU, CNTI, Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental, ONDAS, FESUL, FRUSE, FRUNE, FURCEN e SINTICOP-MG, com apoio do Sintaema-SP, e consolidou uma ampla articulação nacional em torno da pauta central: barrar a onda de privatizações e garantir o direito universal à água e ao saneamento público, democrático e inclusivo.
A FNU esteve representada pelo presidente Pedro Damásio, pela secretária-geral Iara Nascimento, pelo secretário de Finanças, Arilson Wunsch — que também coordena a Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental —, e pelo assessor de saneamento da FNU, Edson Aparecido da Silva.
“Unificação e luta com um só objetivo”
Durante a mesa de abertura, o presidente da FNU, Pedro Damásio, destacou a importância da unidade nacional e da articulação política para reverter o avanço das privatizações e reconstruir um projeto público de saneamento:
“Precisamos de uma unificação e de uma luta com um só objetivo. Independente de partido, confederação ou federação, todas as entidades precisam estar nesta luta. Vamos levar essa mobilização a Brasília, para mostrar a unidade dos trabalhadores e entregar ao presidente Lula um novo plano de governo comprometido com o saneamento público. Temos um governo progressista, mas um Congresso que não ajuda os trabalhadores. Precisamos mudar isso nas urnas em 2026”, afirmou Damásio.
O dirigente também criticou o papel atual do BNDES e defendeu sua reorientação como instrumento de fortalecimento das empresas públicas:
“O BNDES precisa mudar sua forma de agir. Hoje financia contra os trabalhadores e contra o povo. É preciso resgatar o papel do banco público em defesa do Brasil e do saneamento estatal.”
Denúncias e mobilização nacional
Durante os debates, representantes das entidades reafirmaram que o novo marco do saneamento (Lei 14.026/2020) tem provocado tarifas abusivas, demissões em massa, falta de investimentos e precarização do serviço público, destacando casos graves em São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas.
O assessor da FNU e secretário-executivo do Ondas, Edson Aparecido da Silva, reforçou a necessidade de revogar o marco legal e reposicionar o papel do Estado e do BNDES no setor:
“O banco público precisa voltar a servir ao povo e não ao capital financeiro. O saneamento não é mercadoria, é um direito humano e uma política de Estado”, afirmou.
Parlamentares reafirmam compromisso com a defesa da água pública
O seminário também contou com a presença da deputada estadual Paula Nunes (Bancada Feminista/PSOL-SP) e do deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP). A parlamentar destacou destacou a histórica resistência dos urbanitários e a importância de manter viva a mobilização contra o desmonte das empresas públicas e, no caso de São Paulo, da Sabesp, lembrando que “defender a Sabesp é defender o patrimônio do povo de São Paulo”.
O deputado federal Orlando Silva reafirmou seu apoio aos trabalhadores e trabalhadoras do setor de saneamento. Para ele, a luta contra as privatizações vai além da defesa dos empregos — é uma batalha em defesa da democracia, da soberania nacional e do direito humano à água. “É preciso unificar vozes e construir uma frente ampla pela água pública e pelo acesso universal ao saneamento”, afirmou.
Panorama das privatizações e alerta do professor Luiz Roberto Moraes
Um dos momentos mais marcantes do seminário foi a apresentação do professor Luiz Roberto Santos Moraes, doutor e professor emérito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que apresentou dados alarmantes sobre o avanço das privatizações no setor de saneamento.
De acordo com o pesquisador, o número de municípios com concessões privadas saltou de 291 em 2019 para 1.820 em 2025, com previsão de atingir 3.277 até 2027, caso o processo de desmonte das empresas públicas continue.
“A água é um bem comum, essencial à vida, não mercantil, e, portanto, fora da esfera de valorização do capital”, afirmou Moraes, defendendo a revogação da Lei 14.026/2020 e a implantação de um modelo público, participativo e transparente de saneamento.
O professor destacou ainda que os resultados das privatizações são devastadores: tarifas mais altas, queda na qualidade do serviço e exclusão das populações mais pobres, especialmente nas regiões periféricas e rurais. Confira a apresentação do professor Roberto Moraes:
PrivatizaçãoSPAAeESnoBrasil_LRSMoraes_23102025
Enfrentamento ao oligopólio privado
A mesa da tarde, coordenada por Edson Aparecido, debateu o enfrentamento ao oligopólio privado do saneamento no Brasil, com a exposição de Marcos Montenegro (ONDAS) sobre a concentração crescente do setor nas mãos de poucos grupos privados — Aegea, Equatorial, Iguá, BRK e Águas do Brasil — que controlam centenas de concessões e bilhões em receitas.
Montenegro apresentou dados alarmantes sobre a remuneração milionária de executivos e a exclusão social provocada pelo modelo privatista. Também defendeu a atualização da legislação para fortalecer o controle social, garantir justiça tarifária e impedir tarifas abusivas. Confira a apresentação de Marcos Montenegro: PL mudança climática – Apresentação – Versão 23-10-2025
Aprovação do Plano de Lutas 2026
O encerramento do seminário foi marcado pela aprovação, por aclamação, do Plano Nacional de Lutas 2026, que orientará as ações do movimento sindical e social em defesa do saneamento público.
O plano reafirma o compromisso com:
. a revogação da Lei 14.026/2020;
. a reestatização das empresas privatizadas;
. a valorização do papel do Estado e das empresas públicas;
. a defesa do BNDES como indutor do desenvolvimento público;
. a mobilização nacional rumo às eleições de 2026, com foco na reeleição do presidente Lula e na renovação do Congresso Nacional para garantir políticas públicas voltadas ao povo.
“O futuro do saneamento é público, democrático e comprometido com a vida. E essa luta segue com a FNU na linha de frente”, reafirmou o presidente Pedro Damásio.
Assista ao seminário na íntegra:
https://www.youtube.com/live/yZ5NhahwgL0?si=ByenvlOZz90gEOxr
Leia o documento aprovado ao final do Seminário e o Plano de Lutas para 2026:
Documento final do seminário saneamento


