Queda diária do Cantareira, dois anos após o fim da crise hídrica, é a prova de que governo de Geraldo Alckmin “foi incompetente”, diz professor da USP Luis Venturi

Para o professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) Luis Antonio Bittar Venturi, o problema de abastecimento da região metropolitana de São Paulo não é uma questão de escassez, mas de má gestão da água. De acordo com ele, durante os 24 anos de governo tucano, o estado considerado o mais rico da federação não desenvolveu um planejamento a longo prazo para evitar crises de falta d’água principalmente, no sistema Cantareira, que abastece grande parte da região metropolitana da capital.

Nesta terça-feira (28), o reservatório do complexo Cantareira registrou volume de água equivalente a 37,4% de sua capacidade total. Em igual período em 2013, que antecedeu a crise hídrica iniciada em 2014, o nível chegava a 48%.

O geógrafo afirma que retomar a discussão sobre um problema de abastecimento é a “prova cabal” da incompetência do governo de Geraldo Alckmin (PSDB). “Nós não tivemos uma crise em 2014 e 2015? Como é que estamos falando nisso dois anos passado pela experiência de uma crise de abastecimento”, afirma.

Neste mês, o total de chuvas que caíram sobre o Cantareira foi de 73,3 milímetros, acima da média histórica, de 34,5 milímetros. Apesar do bom índice, até a última segunda (27/8) o volume médio de água que entrou no reservatório foi de 13,39 metros cúbicos por segundo, enquanto a retirada média de água feita pela Sabesp foi 22,8 metros cúbicos por segundo.

Com isso, e apesar das chuvas, na próxima quinta (30) o Cantareira pode completar um mês no “estado de alerta” – quando o sistema opera entre 40% e 30% de sua capacidade. “Se você retira muita água de um sistema só, o reservatório vai diminuir muito mais rápido, sem respeitar a reposição”, alerta o especialista.

Venturi acrescenta que as obras anunciadas pelo governo Alckmin deveriam ter sido acompanhadas por medidas de longo prazo, como despoluição dos rios, redução das perdas de água no caminho entre a represa e os consumidores – que chegam a 30% do volume que sai dos reservatórios –, além de políticas de reutilização dos recursos hídricos.

Para ele, não há do governo tucano em São Paulo um projeto para gestão de água no estado. “São 24 anos de uma perspectiva de ‘esperar acontecer para resolver depois’. A prova disso é que, quatro anos depois, estamos falando sobre uma crise de novo”, finaliza.

Venturi afirma que o volume de água disponível faz de São Paulo um caso raro entre as metrópoles no mundo, o que faz “ser um equívoco” chamar a situação de crise hídrica. “Poucas são as metrópoles que possuem tanta água como nós. Temos o Rio Tietê, o Pinheiros, o Aricanduva, o Alto Cotia, entre outros. A cidade é rodeada por represas. A Billings, por exemplo poderia abastecer 5 milhões de pessoas. Porém, onde  mais temos mais água é onde está mais poluído”, lamenta o professor.

Com base nisso, ele diz que não é correto que o poder público culpe a natureza pelo desabastecimento. Para complicar o quadro, no mês de outubro, quando espera-se o recomeço das chuvas, a previsão é que ocorra o fenômeno El Niño, que deve dar continuidade à estiagem. “É cômico culpar a natureza. A gente tem dados há anos que preveem quando vai ter esses fenômenos naturais. O que falta é pega-los para usar na gestão. A gente não pode ser pego de surpresa, porque os estudos existem há mais de um século”, critica. (fonte: Rede Brasil Atual)

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